E aí? Como é ter o tal Coronavírus? - Maria Fernanda Medina Guido

E aí? Como é ter o tal Coronavírus?

Acho que a pergunta que mais ouço é: “como foi quando você descobriu que estava com o vírus?” e sinto que minha resposta decepciona rs porque não me assustei. E isso não tem nada a ver com minha formação viu? Porque nessas horas, não tem diploma de Psicologia que dê conta não rs. Mas acredito que tenha a ver com uma coisa que aprendi a fazer e que insisto tanto para que as pessoas também tentem: eu ouvi meu corpo e ele estava em silêncio, sereno. Meu coração não acelerou, não sentia frio na barriga, não me faltou ar, meu corpo continuava quietinho, só meus pensamentos insistiam em fazer um looping infinito rs, mas ao consultar o restante e não sentir nada, achei que tava tudo bem, afinal, já passei por algumas coisas nessa vida, e sempre que fiz essa análise deu certo, então, segui acreditando. Em nenhum momento pensei que morreria. Ou pararia numa UTI etc etc etc. Senti que seria chato mas que eu daria conta. E segui.

Depois de comunicar a minha família e alguns poucos amigos e ouvir muitas recomendações, como vocês sabem, não há remédios contra o Coronavírus. Em casos “leves” e preciso salientar, não são nada leves, as recomendações médicas em geral são monitorar os sintomas, dormir bem, comer bem, descansar e tomar sol. Então resolvi que os próximos dias seriam voltados a desacelerar, a fazer pouco, quase nada, a lançar mão de tudo que ajudasse e a fugir de tudo que me deixasse aflita. E funcionou muito bem. Por isso resolvi dividir com vocês o que realmente ajudou, porque pode ser que você não passe pelo que passei (estou torcendo por isso), mas você está passando por uma quarentena no Brasil, então, tudo isso continua sendo útil rs:

 

Entretenimento: eu e meu marido (que também adoeceu) resolvemos assistir novamente vários filmes que marcaram nossa infância e adolescência, e isso foi muito legal. Alguns, mesmo 25 anos depois provocaram as mesmas sensações e isso te faz perceber que apesar de tudo a vida não te embruteceu demais sabe? Gostei muito de fazer isso e pretendo continuar. Também escolhemos seriados novos e com finalidade única de distração, como por exemplo o seriado Last Dance, da Netflix, que conta a história da carreira de Michael Jordan. 10 horas de basquete. 10 horas onde o Covid e tudo mais perderam espaço  em nossa quarentena. E foi muito bom. Recomendo. 🙂

 

Trazer as pessoas importantes para perto de você: estar numa situação dessas nos deixa muito vulneráveis e nos faz querer colo, afeto. E como faz numa pandemia? Faz o que dá. Eu fiz a receita de sagu da minha avó, claro que não ficou igual, mas cada colherada me levava para minha infância. Eu pedi hortelã fresco na quitanda e fiz várias vezes chá, porque o cheirinho de hortelã também me traz a lembrança de quando eu era criança e colhíamos hortelã no quintal, eu e ela. Fiz algumas chamadas de vídeo com minha irmã e minha sobrinha, porque durante aqueles minutos quase tudo que tínhamos que fazer era brincar de “estar dormindo/acordada” e de “se esconder e se achar”. Minha sobrinha tem dois aninhos, ela não fazia ideia do que estávamos passando e isso foi muito bom.

 

Estabelecer pequenos rituais: a minha condição não me dava margem para inventar muitos afazeres, o cansaço era grande, mas algumas coisas se tornaram fixas, porque realmente faziam bem, como caprichar no café da manhã, tomar sol, aproveitar esse momento para me silenciar um pouquinho e meditar, tomar um banho gostoso depois do sol, ligar o difusor elétrico, escolher a essência do momento e contemplar aquela fumacinha saindo, assistir um ou dois episódios do Last Dance depois do almoço, fazer minhas orações antes de dormir, dormir e acordar nos mesmos horários entre outras coisas. Tudo isso, além de ótimo, dá uma sensação de que o mundo pode estar de cabeça para baixo, mas nestes momentos, sabia o que devia ser feito era só isso que eu precisava fazer.

 

Aprender a me distanciar do que me afligia: algumas pessoas por maior que fossem suas boas intenções, às vezes me mandavam mensagens que não ajudavam muito. Acompanhar as notícias, pesquisar sintomas no Google, estar presente nas redes sociais. O limite era mínimo para tudo isso. Fiz o que pude para não me estressar, sentir raiva, me angustiar. Então ao menor sinal de desconforto em meu corpo, aquilo era silenciado. Fiquei muitas horas longe do celular. Sei que isso no meu dia a dia é impossível, mas naquele momento eu podia e não hesitei. Esse distanciamento na medida certa, ajuda demais.

 

Repensar tudo: esse item aqui vai render muitos textos e post´s e se eu ficar “monotemática” vocês me avisam rsrs. É porque acredito que isso seja o mais importante dessa loucura toda que estamos vivendo. Quando a pandemia começou, eu que apesar de muito racional sou também muito esperançosa em relação a evolução humana, acreditava que seria a crise perfeita para que nos tornássemos pessoas muito melhores e ainda acho que é. O ponto que percebo há algum tempo é que esse processo não acontecerá coletivamente. Ele é íntimo, pessoal. Cabe a cada um de nós resolver se vai aproveitar o momento ou não. Aliás, deixarei aqui abaixo um vídeo de um trecho do programa Papo de Segunda do GNT onde o rapper Emicida, expressa de maneira muito clara essa constatação. E aí, ao começar a melhorar dos sintomas, me veio um sentido de urgência, uma necessidade de repensar minha vida, repensar em como eu quero ser vista, como quero levar a minha vida, rever meus planos e objetivos, repensar em como preciso fazer com que todos os privilégios que tenho/tive façam a diferença no todo, não somente para mim. Concorda que tudo que escrevi até agora só foi possível porque sou muito privilegiada? Poder pagar um teste particular para confirmar a doença, ter um plano de saúde, poder descansar por 12 dias sem trabalhar, poder monitorar os sintomas de casa, ter uma casa, enfim, daria para escrever outro texto se fosse listar todos os meus privilégios. Não posso e não quero mais ignorar tudo isso. Estou longe de ter finalizado esse processo, nem sei se um dia isso acontecerá, mas estou me comprometendo todos os dias a não deixar tudo isso passar em vão. Não acho justo. Trezentas e noventa mil pessoas perderam suas vidas nos últimos meses para esse vírus até a data de hoje. Aqui no Brasil, são trinta e cinco mil vidas. Estou tendo a minha segunda chance e pretendo honrá-la da melhor forma possível. Gostaria muito que todo mundo conseguisse pensar assim, porque se ao final de tudo isso, você também tiver sido poupado (e torço muito para isso), você também terá recebido uma nova chance. E aí, continuar vivendo do jeito que estávamos antes, anestesiados, mais preocupados em ter que ser, consumindo sem precedentes, ignorando as minorias, entre tantas outras coisas que estávamos/estamos ainda reproduzindo, não faz o menor sentido.

PS1: Se cuide, cuide dos seus e fique em casa o máximo que você puder.

Ps2: Vai passar, mas não se engane, para isso acontecer, precisamos fazer a nossa parte.

 

Esse é trecho do Papo de Segunda que falei, assistam, vale a pena:

4 comentários »

  1. Thayz disse:

    Obrigada pelo seu relato!
    Amei sentir um pouco do que vc passou e a maneira como lidou com tudo isso. Digo que é uma montanha russa, cheio de incertezas, e oq nos cabe é deixar fluir cada descida e subida. Logo todos nós sairemos dessa, mas o ponto chave, acredito eu, e é o que está me ajudando, é não ver muita informação sobre o assunto, na tv só se fala disso, e da maneira como é imposta , nos aflinge muito, gera ansiedade e desconforto. Então preferi não ver mais as notícias, não vejo jornais/programas de tv praticamente desde o começo. Estou por dentro sim das notícias, mas uma vez por semana, ou a cada 15 dias, de resto, foco no trabalho, filmes, seriados etc.

    Grande abraço

    1. admin disse:

      Obrigada você Thayz! ❤

  2. Luciana disse:

    Fer, excelente reflexão. Em cada linha vi amor, respeito e autocuidado… muitas vezes negligenciados no nosso dia a dia, mas que são fundamentais para nossa saúde física e mental.
    Eu também espero que esse momento de isolamento seja uma imersão dentro de nós mesmos, para que saiamos transformados. Só assim podemos contribuir com aqueles que infelizmente não tem condições de parar e olhar para si com o cuidado que merecem.
    Estou torcendo para que esteja plenamente curada o quanto antes! Beijos 😘

    1. admin disse:

      Muito obrigada Lu! ❤

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