Porque nos sentimos tão em falta - Maria Fernanda Medina Guido

Porque nos sentimos tão em falta

Escrevi este texto para a mulher exausta que habita dentro de você:

Fizeram você acreditar que você não é bonita o bastante, magra o bastante, inteligente o bastante, delicada o bastante, competente o bastante, adequada o bastante.

Fizeram você acreditar que independente do quanto você estude, trabalhe, se cuide, se esforce, se comprometa, ainda não é o bastante.

Fizeram você acreditar que existem áreas de trabalho, cargos, assuntos, lugares que não cabem a você, independente de quem seja você.

E aí, chegando ao fim do ano, penso que provavelmente você já tenha passado por muitas decepções, traições, perdas, desilusões. Imagino que você já tenha apresentado alguns projetos profissionais, tido muitas ideias, trabalhado muitas horas, tenha sido avaliada, tenha cometido erros e acertos. Acredito que você já tenha providenciado muitas refeições para a sua família ou para si mesma, que tenha reabastecido a geladeira repetidamente, que tenha varrido sua casa, lavado roupas, arrumado a cama, trocado fraldas, curado febres e joelhos ralados. Tenha abastecido seu carro e rodado muitos quilômetros ou tenha passado horas dentro de ônibus, táxis ou metrô. Tenha realizado vários procedimentos estéticos, cuidado da unhas, dos cabelos, comprado roupas novas, tentado tomar 3 litros de água todos os dias, iniciado algum tipo de dieta, (e com certeza falhado na mesma porque afinal de contas elas também foram desenvolvidas para isso), tenha perdido medidas, tenha se sentido inchada, tenha sobrevivido a algumas TPM´s, tenha conseguido agendar algum médico e verificar se está tudo bem ou ainda tenha esperança de conseguir fazer aquele ultrassom. Tenha se matriculado em Academias, Estúdios de Pilates, Yoga, se inscrito em corridas, feito algumas caminhadas, esteja cogitando Crossfit, já que, só você ainda não se rendeu ao Crossfit. Tenha iniciado alguma pós graduação, curso, especialização, participou de alguma palestra, treinamento ou comprou aquele livro que T-O-D-O mundo está lendo. Tentou meditar, se elevar, se reconectar com o espiritual, acender incensos, velas e pensar positivamente sobre tudo. Passou finais de semana correndo entre festinhas de aniversário, churrascos familiares, apresentações de ballet e intermináveis engarrafamentos em feriados para relaxar algumas horas frente ao mar.

Tentou cuidar da sua casa, da sua família, das suas amizades, dos seus bichinhos, das suas plantas, da sua carreira, da sua autoestima, do seu corpo, da sua alma. Tenho certeza que ainda faltou milhares de outras coisas que você fez e eu por já estar cansada só de pensar não escrevi aqui. E sabe como você provavelmente se sente? Em falta. Devendo.

Por que?

Porque enquanto continuarmos nesse looping infinito não questionamos, não refletimos, só fazemos ou não fazemos e nos culpamos. Sabe quando você se sentirá em dia? Em dia com tudo que você tem que fazer, deveria fazer, já passou da hora de começar a fazer? Arrisco dizer que nunca. Esse dia não chegará porque sempre haverá novos compromissos, novos cursos, habilidades que agora são primordiais e devem ser trabalhadas, novos livros, geladeira vazia, tanque de combustível vazio, pó nos móveis, roupa para lavar, filho para cuidar, cabelos para cortar. Ou diminuímos a cobrança interna em relação ao que ainda não foi feito e nos voltamos ao tanto que já fizemos e entendemos que não será possível dar conta de tudo e está tudo bem ou viveremos por aí feito zumbis, tentando fazer tudo e nos adoecendo cada vez mais.

Está na hora de você repensar em tudo que lhe fizeram acreditar e em como a banda toca de fato e perceber que obviamente você é o bastante. Olhe o quanto você fez, faz, perceba o quanto você já conquistou, perceba quantas pessoas impactadas positivamente por suas ações, seus cuidados, sua generosidade.

Ainda levará um tempo infelizmente até que consigamos de vez romper com alguns destes padrões criados com o objetivo de nos manter “controladas” através da insegurança, ainda gastaremos muito dinheiro nesta tentativa de estarmos mais próximas do que a Indústria nos faz acreditar que algumas mulheres já estão, da tal plenitude. Ainda sofreremos muito. Mas tem algo que podemos sim começar a fazermos já. Podemos tentar nos unir mais e termos mais empatia umas com as outras. Podemos tentar parar de mentir umas para as outras. Podemos tentar apoiar mais umas as outras. Uma das melhores formas de nos sentirmos bem em relação a nós mesmas é para de julgar ao outro. Se eu ajusto o filtro interno e ao invés de criticar a fulana paro e tento me colocar no lugar dela e ter um pouquinho mais de compaixão, é mais provável que numa próxima vez eu aja do mesmo jeito comigo mesma. Podemos começar aos pouquinhos, por exemplo, a próxima vez que uma mulher desabafar contigo sobre qualquer coisa que ela acredita que não está dando conta, ao invés de aproveitar o momento para reforçar seu ego, e dizer que você dá conta daquilo sim, que tal dividir alguma angústia sua também? Que tal acolhe-la? Porque eu não sei você, mas eu ando bem cansada de me sentir assim, em falta.

Com carinho,

M Fernanda

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