Discutindo o mito da beleza - Maria Fernanda Medina Guido

Discutindo o mito da beleza

O livro “O Mito da Beleza”, escrito pela jornalista Naomi Wolf não é um livro fácil de se ler. Ele foi publicado em 1991 e embora na nova introdução que foi inserida ao livro em 2015 numa edição comemorativa, Naomi diga que avançamos muito, percorrer seus capítulos muito bem fundamentados em centenas de relatos de mulheres de 17 países além de inúmeras pesquisas e dados estatísticos, incomoda. Perceber como fomos manipuladas ao longo dos tempos e continuamos sendo, dói.
Por isso, ele é tão fundamental e sendo assim, eu, a Psicóloga Juliana Leite e a Psicóloga Cristina Collusso falaremos sobre ele em alguns post´s a partir de hoje. Porque ok, avançamos sim, mas não podemos “baixar a guarda”, ainda. E para começar quero falar sobre uma análise que Naomi traz no capítulo Cultura, que eu acho que vale muito a pena.

Para ela, as revistas femininas assumem um papel de uma “voz sábia” desenvolvendo uma aliança com a leitora, de estar a seu lado com conhecimento e recursos superiores, como um serviço de assistência social gerido por mulheres, oferecendo indústrias de cosméticos dispostas a ajudar, esteticistas que a conduzam passo a passo. As revistas fornecem serviços reais e esses aspectos reunidos fazem com que a revista pareça ser mais do que uma revista. Eles fazem com que ela pareça ser um misto de família.

E aí eu, que para sua referência rs, estou próxima dos 40 anos, fiquei pensando em muitas coisas. Primeiro na relação que eu tinha com as revistas na minha adolescência e no início da vida adulta. A “Capricho”, “Atrevida” e mais tarde a “Nova” eram tudo isso mesmo. Elas me davam informações “confiáveis” do que eu precisava fazer. NUNCA questionei a veracidade das informações escritas lá. Confesso que questionar a veracidade do que é publicado é relativamente novo pra mim, não sei para você. E aí, fiquei pensando na quantidade de informação que absorvi, sobre padrões estéticos, de comportamento, sobre estilo, moda e beleza que estavam ali na minha leitura mensal “confiável” sendo patrocinadas pela indústria. É muito maior que pensamos.

Por curiosidade acabei de folhear a versão digital da revista Ana Maria. A sensação que eu tive foi de um “morde-assopra” sabe? Falar sobre como se focar no positivo ou como se livrar da síndrome do impostor mas em seguida abordar com várias páginas e detalhes tratamentos estéticos e a moda nos “tapetes vermelhos” usadas por famosas brancas e magras. Como se focar no positivo? Mudou muito do que Naomi escreveu em 1991? Nada.

E aí você pode estar pensando: mas ninguém mais lê revistas. E eu concordo, o alcance delas hoje é muito menor. Mas será que não transferimos essa “voz sábia” que as revistas nos traziam por blogueiras e influenciadoras digitais? Será que ao ouvir ao discurso de uma tal “empresária da saúde” com 3,6 milhões de seguidores no Instagram e aparência física dentro dos padrões do momento nós não daremos um voto de confiança a ela também? Será que de imediato perceberemos que ela é mais uma fonte de vendas de produtos ou cursos? Vou falar por mim: o discurso exagerado, da influenciadora fitness tomando suco detox não me engana, mas se ele vem de alguém que eu gosto e sigo, ele às vezes confunde. Assumo que já comprei shampoo, por exemplo, porque alguém “confiável” fez uma resenha dizendo ser “mara”. E claro que meus cabelos não ficaram tão “mara” assim… Você também já não caiu nessa? Para pra pensar.

Por isso, nunca é demais frisar. Cuidado ao que ouve, ao que te indicam, àquela voz amiga digital que só está querendo te ajudar. Como diz Naomi: “como podemos ser livres se somos prisioneiras de um ideal de corpo perfeito? Como podemos ser felizes se estamos permanentemente exaustas, inseguras e insatisfeitas com nosso corpo? Como podemos ter prazer se nos mutilamos e nos sacrificamos para ter um corpo magro, jovem e sexy?” Não podemos. E se a Indústria da beleza precisa faturar e não compramos mais revistas, aonde será que ela está?

 

Para quem se interessou pelo livro: O mito da beleza, Naomi Wolf – Editora Rosa dos Tempos

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